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Cabelos
Primeiro foram seus cabelos que procuraram o fundo, buscando raízes de mato, entrelaçando a folhagem, enraigando cada vez mais, abaixo da tenra terra molhada... Depois suas carnes. Escorrendo a maquiagem, escorregadia membrana acercando seu nariz ao seu ouvido, ouvindo micros-tumultos em ecos borbulhantes de dentro pra fora, escarificando o rosto, pelos buracos, que se abrem, em trincadas células, ressecadas rugas, misturados tecidos, roupas e peles, escarnando a estetizante máscara da dor. A chuva, o sol e a garoa fincam marcas na garota, embaralhando figuras, desfigurando unhas, bordejando insetos, aguçando vermes, atraindo animais que arrancam pontas, que rasgam vísceras e descarnam entranhas. Cheiros iniciaram no segundo dia, primeiro insuportavelmente úmido, depois mais seco e áspero, esvaziando sua emanação em dias de isolada deterioração. Um dia a vida lhe desenhara belo corpo, arredondadas carnes em belo quadril, fina cintura, em movimentos de cinto sincopados, em que cavalgava, não andava. Potranca de bela crina, incríveis dentes, cavalgava pelas ruas, em largos passos, esguias pernas, saltos altos, curtíssimas saias, e pertencia a todos, exclusivamente a todos, em lascivos olhares e convites e deslizes pelos carros e hotéis de quinta, esquinas escuras, becos vazios e bocas sempre cheias, de dedos, línguas, pêlos, peles e músculos... O sorriso, agora escaveirado, não se esconde por grossos lábios. Sorriso vazio, carneado, duro em pose de flash de xis, sorriso de giz, sem queixo, sem queixa, sem sorriso de gueixa e deixa, e me deixa, que não me mate agora e, suplico ir-me embora , que sou só uma menina, me nina, me nina que o quente deste sangue que esvazia, que me enche a mente, está resfriando aceleradamente, escorrendo em meu peito, enchendo meu leito verde, elevando minh´alma, esticando minha palma, que já não preciso gladiar contra isso e me entrego ao seu mesmo futuro destino... Em vala incomum..
(... Publicado na revista lasanha...)
Escrito por MIM às 11h14
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Aquecimento
Agora que está chegando a hora do fim-do-mundo, em que a água e o sol serão demais, que afoga, um pouco, esse fogo de sim nunca mais... brincamos de Nostradamus prevendo um futuro pequeno... bem pequeno... como um lapso, uma fagulha de vida, que não vinga após os novos tempos... o que deixaremos pra trás? Em que nave fugiremos, em que planeta teremos uma casinha na colina? E você, meu amigo, só você poderá criar sua indústria, pois ela não afeta a camada de ozônio, porque poemas não criam poluição e o nosso céu será sempre azul, seu azul profundo...
(... ao amigo arruda)
Escrito por MIM às 11h10
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